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19.01.2009
A ESTRATÉGIA BRASILEIRA E O TEMPO DA CRISE
por Gustavo Grisa
O estado de crise já é consolidado na Europa. Na TV espanhola, as tentativas de otimismo e negação da crise do presidente Zapatero são motivo de piada. Na França, Sarkozy lida com a desaceleração como uma realidade consolidada, e tenta administrar a mídia com ações de política externa Em Portugal, o Presidente Cavaco Silva e o primeiro-ministro José Sócrates divergem: Cavaco, na linha de “apertar o cinto”, Sócrates com um discurso mais otimista. Nos Estados Unidos, a indústria automotiva busca apoio financeiro bilionário. Mesmo os movimentos sindicais sentem-se desorientados: os instrumentos tradicionais, como greves, não são eficientes diante de uma crise generalizada.Os indicadores de todas as economias já demonstram uma clara desaceleração, ainda que longe de ter dimensões catastróficas.

Tecnicamente, a chegada prática da recessão no Brasil depende apenas do tempo dos fluxos econômicos. Como os fluxos econômicos de exportação e investimentos do Brasil são majoritariamente Europa e Estados Unidos, não há muita escapatória. O que existe de positivo, e é o que tem dado fôlego e até alguma credibilidade a manifestações de exagerado otimismo é uma inércia resultante dos excelentes resultados econômicos de 2008. Uma inércia positiva que tende a esvanecer, progressivamente, nos próximos meses. Os primeiros indicadores já indicam uma possibilidade de recessão técnica no segundo trimestre. O que não é o fim do mundo, após um ano particularmente dinâmico. O fim do mundo seria um agravamento progressivo da situação e o alongamento dessa crise. O maior problema é que, diante da incerteza quanto à duração desse ciclo, não se sabe quando entrar em ação com os instrumentos, que têm as suas limitações.

Diante desse cenário, o governo brasileiro tem agido corretamente? Ao tentar segurar as expectativas e procurar retardar esse desaquecimento, sim. Ao minimizar ao povo a magnitude da crise e incentivar o gasto individual e o endividamento em detrimento da poupança em um momento de incerteza, tomou uma postura politicamente arriscada diante de um risco de prolongamento de uma crise em que possui baixa margem de controle.

A mais concreta e eficiente das medidas econômicas seria a desoneração tributária das pessoas físicas e empresas: já se iniciou com a redução do IPI sobre os automóveis e poderia ir adiante com outros impostos, de forma a manter as atividades voltadas ao mercado interno razoavelmente aquecidas. Outra seria a não-paralisação de investimentos públicos e abertura de frentes de trabalho, como tem sido adotado nos EUA. O que sabemos é que, no caso de uma crise prolongada, as finanças públicas teriam que sofrer mudanças profundas, de forma a conviver com menor arrecadação, garantir fôlego para medidas anti-cíclicas e permitir essa desoneração. Por isso que todo e qualquer aumento da despesa pública que não seja com investimentos nesse momento é abominável.

A estratégia brasileira diante da crise é de cautela, aguardando uma reação externa positiva nos próximos meses: nesse caso, a crise por aqui seria apenas um hiato antes de uma retomada econômica. Ou seja, o Brasil “driblaria” a crise, sofrendo um impacto temporário e relativamente suave. Essa estratégia é frágil, porém, diante de um prolongamento da situação e da demora de uma solução com repercussão global. A margem para medidas de grande impacto no Brasil é, hoje, bastante limitada, devido ao estrangulamento financeiro do setor público, principalmente com custeio e pessoal.

Por isso, precisamos torcer tanto por Obama.
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