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05.02.2010
A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
por Rodrigo Constantino
“O passado não nos dirá o que devemos fazer, mas sim o que devemos evitar.” (Ortega Y Gasset)

Estudar a história da América Latina é uma tarefa que pode causar certa monotonia na pessoa. Afinal, impressiona o quanto as mesmas coisas se repetem por aqui. Nós não aprendemos com os erros passados. A região parece um quadro algumas vezes, imóvel na parede. É o caso das tentativas de conquista de poder por parte dos socialistas, que encontram sempre um ambiente fértil para plantar a semente da discórdia, crucial para espalhar sua seita. Por isso eles não desistem nunca; pois com tanta ignorância e miséria, a seita socialista sempre será uma ameaça concreta. A Venezuela é apenas o mais recente e desastrado caso.

Acredito que um estudo sobre o caso chileno é deveras ilustrativo, pois se até o Chile, país que gozava de uma estabilidade política ímpar na região, caiu nas garras do socialismo, então todos são vítimas em potencial desta praga. E no Chile, os socialistas liderados por Salvador Allende utilizaram táticas muito semelhantes às utilizadas ainda hoje pelos socialistas da região, incluindo Hugo Chávez. O uso da democracia como um meio para se destruir a própria democracia e as liberdades individuais, instaurando assim um regime socialista, não é nada novo.

Allende não foi eleito presidente do Chile por uma maioria absoluta. Ele recebeu apenas 36,2% dos votos, contra 34,9% do candidato conservador, e 27,8% do candidato democrata-cristão. Em outras palavras, mais de 60% dos eleitores não queriam Allende no poder. Mas no Chile não havia um segundo turno para situações como esta. Cabia ao Congresso completar a eleição. Uma aliança entre os dois outros partidos poderia, dentro da Constituição chilena, colocar outro candidato em vez de Allende na presidência. Não havendo consenso entre eles, Allende acabou sendo indicado, mas não sem antes um compromisso de que ele não iria desrespeitar a Constituição do país (tal receio já existia na época das eleições).

Uma vez no cargo, Allende iria ignorar tal compromisso, e governar com a meta de destruir a própria democracia, promovendo uma ruptura social e institucional no país. Logo no começo este objetivo ficou evidente. A tradição chilena era que o presidente eleito estendesse a mão aos que não haviam votado nele, assumindo a postura de presidente de todos os chilenos. Allende preferiu romper esta tradição, anunciando que suas ações partiriam da premissa de que existiam, no Chile, conflitos de classe irreconciliáveis. Quais classes seriam privilegiadas estava evidente nas bases do governo: movimentos revolucionários de esquerda, grupos que se preparavam para uma guerra civil inspirada nas táticas de Che Guevara.

O ex-presidente Eduardo Frei afirmou que os allendistas “aplicaram deslealmente as leis ou as atropelaram abertamente”, desrespeitando inclusive os Tribunais de Justiça. O governo interferiu nas eleições sindicais, favorecendo grupos aliados ou criando grupos paralelos quando seus aliados perdiam as eleições. Eles chegaram a propor a substituição do Congresso por uma “Assembléia Popular” e a criação de “Tribunais Populares”, algo semelhante aos “tribunais do povo” dos jacobinos na era do Terror. Uma Guarda Pessoal foi criada em 1971, altamente armada. O sistema de educação seria convertido num processo de doutrinação marxista.

A Corte Suprema da Justiça, por unanimidade, censurou o Poder Executivo por desrespeitar sistematicamente as decisões dos Tribunais. No segundo semestre de 1973, já não havia dúvidas de que uma ditadura totalitária estava sendo instaurada no Chile. Milhares de representantes da extrema esquerda foram para o Chile, e a embaixada cubana virou um verdadeiro ministério paralelo. Escolas de guerrilha foram criadas, treinando paramilitares sob a proteção do governo. Houve uma acelerada importação clandestina de armas pesadas. A infraestrutura para um exército paralelo estava instaurada. A democracia estava com seus dias contados.

No campo econômico, a crise, gerada pelo próprio governo, foi vista como oportunidade para mais intervenção ainda. Allende congelou os preços, manipulou artificialmente o valor da moeda, elevou consideravelmente os gastos públicos, e comprou por meio do Estado inúmeras empresas privadas. Outras tantas foram perseguidas pelo governo. Fazendas foram tomadas. A mineração de cobre, principal indústria chilena, foi expropriada e colocada sob gestão estatal. Após um ano de governo, Allende teve que pedir uma moratória para a dívida externa do governo. Entre junho e dezembro de 1972, o índice de preços de consumo foi multiplicado por quatro, e ainda dobraria outra vez depois. A produção agropecuária chegou a cair 25%. O caos era total, resultado das medidas do governo Allende, que explorava este caos politicamente.

Os socialistas chilenos não conseguiam conviver com os limites do poder do Estado, com a liberdade de expressão, com a alternância de poder. O diplomata venezuelano Carlos Rangel, em Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário, escreveu que a experiência chilena provou, uma vez mais, algo mais do que sabido: “a incompatibilidade do marxismo-leninismo com a democracia”. Os socialistas acabam usando as brechas democráticas para instalar uma ditadura totalitária. Criam, assim, um ambiente de guerra, onde, de uma forma ou de outra, o resultado será uma ditadura. Allende, neste sentido, foi o pai político de Pinochet. Sem aquele não teria existido este.

As queixas posteriores dos socialistas, os protestos em nome da democracia, não passam de hipocrisia. A amargura dos derrotados é “a de quem perdeu uma guerra, não a daqueles que buscaram a paz”, diz Rangel. E quem pode evitar um déjà vu lendo tais linhas? As semelhanças com o que se passa hoje na Venezuela são gritantes demais. Agora, o regime “bolivariano” de Chávez começa a encontrar algumas barreiras, fruto do enorme fracasso econômico, e o ditador precisa derrubar a máscara da democracia que vem tentando usar até então.

Uma vez mais a lição será dada: o socialismo democrático é uma impossibilidade. Os meios socialistas levam a uma ditadura opressora sempre. Ou o próprio Chávez sairá vitorioso, reinando absoluto tal como seu camarada Castro em Cuba; ou então algum golpe militar vai retirar Chávez do poder e instaurar outra ditadura. De qualquer forma, a Venezuela caminha a passos largos rumo a uma ditadura totalitária, plantada pelos socialistas. Caso estes saiam derrotados, irão depois posar de vítimas, e com o tempo ajudando a apagar uma memória curta, o povo latino-americano, guiado por uma elite de “intelectuais” esquerdistas, poderá sonhar uma vez mais com as maravilhas do tal socialismo democrático. Essa repetição no erro mais parece um sintoma de uma neurose coletiva dos latino-americanos.
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