Mais um ano e o RS volta a discutir o seu futuro, através de uma nova tentativa de concertação. Talvez, por tanto praticar, venhamos a aprender. Com uma intensidade e profundidade que nenhum Estado brasileiro fez nos últimos anos, construímos agendas, pactos, tentamos aprovar pacotes que causaram grande polêmica e repercussão. O Rio Grande parece ter se recolhido para refletir, e, quem sabe, engrenar para ressurgir das cinzas. Ainda bem que aprendemos a ser exigentes, e não podemos perder isso.
O ano de 2007 foi complicado para o Rio Grande do Sul. A crise financeira ficou latente e todo o País soube do problema gaúcho. Mas foi também um ano de verdades. Que, espera-se, tragam soluções.Nada cômodas, nada agradáveis. E, por isso, sempre adiadas.
Uma novidade concreta é um governo que está realmente disposto a enfrentar a crise financeira de frente e não fazer concessões corporativistas.
Por outro lado, é impossível ignorar o baixo índice de aprovação do executivo estadual apurado no início deste ano, um dos mais baixos do Brasil. Significa necessariamente que o governo do Estado não está atendendo aos anseios do povo gaúcho? Talvez não. Significa que há problemas na articulação de suas ações com a sociedade? Com certeza.
O baixo índice de aprovação deve lembrar à governadora e seu núcleo duro o “Inimigo do Povo”, peça teatral sueca de Henrik Ibsen, e seu herói, o Dr.Stockmann. Como o Dr.Stockmann, há convicção que o que se está fazendo é o mais correto e importante no momento. O trabalho é sério. Mas o desfecho da história de Ibsen, o consolo do Dr.Stockmann de manter-se íntegro e concluir que “ o mais forte é aquele que fica sozinho” não se aplica a um governo, cujo sucesso é medido pelo termômetro eleitoral e da opinião pública.
Não obstante os esforços na direção correta e a recuperação conjuntural do ano passado, os problemas econômicos que o Rio Grande enfrenta e enfrentará vão muito além da crise financeira.
A economia gaúcha não dá conta da sustentação do presente e do futuro do Estado nos níveis de bem-estar social que a sociedade gaúcha demanda. O Rio Grande caiu em 2005, segundo o IBGE, para uma participação inferior a 7% na economia brasileira, baixando da média histórica de 8%, que vinha desde meados da década de 70. A realidade econômica gaúcha é bem aquém do potencial que nossos indicadores sociais e educacionais permitiriam. As escolhas estratégicas equivocadas das últimas décadas, ou a não execução completa das estratégias certas – como a atração de grandes investimentos âncora- determinaram que hoje uma geração inteira de gaúchos permaneça atônita. As novas gerações precisam ter projeto, visão de futuro e confiança no Rio Grande.
No entanto, vejo o Estado ainda paralisado. O medo, a incerteza em relação ao futuro, ainda massacra toda uma geração de gaúchos. As reformas têm sido rechaçadas, sem propostas alternativas consistentes.
O que será do Rio Grande, em um futuro próximo? Perderemos os próximos anos na continuidade de disputas paroquiais e na teimosia em não fazer o que deve ser feito? É hora de uma distensão de ânimos, de um pacto político mais amplo que desentrave o Estado e prepare o Rio Grande, ainda com atraso, para a economia do século XXI. Em termos políticos e de governança, idem. Os primeiros passos já foram dados.
A diminuição da carga fiscal não é viável no curto prazo, mas a reforma da previdência, a implementação de tetos salariais e patamares de remuneração mais coerentes (para cima e para baixo), e a configuração de um fundo específico para investimentos em educação e tecnologia, são possíveis. As novas tendências da gestão estratégica do desenvolvimento – modelos de governança, fundos de aplicação específica, modelos de parceria público-privada – estão aí para ser aplicadas, antes que possivelmente venhamos a navegar em um mundo em recessão, e por isso mais conservador.
A partir dos resultados de um novo pacto e momento político, poderemos em alguns meses dizer que o Rio Grande inicia, lentamente, o processo de perda do medo de encarar e construir seu futuro. À moda campeira, começamos a pegar o touro do nosso destino à unha. Nesse cenário, há papéis de liderança que devem ser exercidos. E responsabilidades que não podem ser esquecidas em busca de um objetivo maior. |