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14.07.2008
BRASIL: OPORTUNIDADES DE UM BRIC TARDIO
por Gustavo Grisa
O caderno especial do Financial Times do último dia 8 de julho traz um tom confiante sobre as perspectivas do Brasil. O objetivo tradicional dos cadernos do gênero, que são publicados periodicamente no prestigiado diário inglês é promover a atração de investidores internacionais nos países, em um tom otimista e genérico.

A leitura criteriosa desse suplemento permite uma análise pragmática do momento do País diante da opinião dominante na comunidade econômica internacional: a de uma economia até certo ponto letárgica, em comparação a Rússia, Índia e China, porém estável no médio e longo prazos, com forte cultura democrática e menos exposta a descontinuidades.

Letargia Benevolente - O Brasil também tem a sua experiência de crescimento econômico atual em um momento posterior aos demais Países BRIC, em parte decorrência da maturidade mais tardia dos reflexos positivos de uma estabilidade macroeconômica que iniciou-se em meados da década de 90, em parte pela letargia em realizar reformas necessárias para assegurar desenvolvimento econômico mais intenso e mais precocemente. É uma certa repetição da estratégica histórica, de precaução, da cultura luso-brasileira: ao optarmos por transições mais lentas e caminhos mais suaves, perdemos oportunidades, mas sofremos menos com as intempéries. As condições naturais excepcionais do País para o desenvolvimento permitem essa gestão menos agressiva, que causa uma certa impaciência interna, mas não é de todo desprovida de resultados.

O último trem para Paris, de novo? – Ao final da década de 70, o ex-ministro do Planejamento Reis Velloso cunhou uma expressão interessante: de que o Brasil estava pegando o último trem para Paris, ou seja, estava capturando os últimos benefícios do “boom econômico” e disponibilidade de recursos para investimento da década de 70, que começou a mudar a partir da crise do petróleo. De forma retardatária em relação a outros países, o Brasil continuou crescendo e capturando investimentos até o final da década de 70, em meio a um mundo já em recessão. O que acontece agora é, guardadas as devidas proporções e circunstâncias, semelhante: o mundo começa a desacelerar enquanto ainda completamos o nosso ciclo, tardio, de crescimento.

Inflação e Confiança – A ampliação do ritmo de captação de investimentos internacionais no País depende basicamente de dois fatores: a manutenção do clima de confiança, que depende em grande parte do sucesso na contenção da inflação, que a desaceleração mundial seja o mais lenta e branda possível. A questão é: como conciliar o combate inflacionário e a manutenção de um crescimento econômico razoável?

O que fazer? – É óbvio que da onda mundial de crescimento e investimentos nos países BRIC desde o final da década de 90, tivemos o aproveitamento mais tímido. É inegável que se tivéssemos implementado uma reforma tributária, tivéssemos um regime cambial mais estável para o setor produtivo exportador e tivéssemos evoluído mais na gestão do setor público - restringido despesas de custeio e aumentado os investimentos - teríamos mais investimentos privados, mais empregos de qualidade e um crescimento de maior magnitude e continuidade, antecipando-se aos movimentos mundiais e não apenas sendo seguidores e nos posicionando tardiamente. O que temos que fazer é acelerar um posicionamento agressivo para atração de investimentos e manter a inflação sob controle. Junto com a inflação baixa será mantida a confiança. E cruzar os dedos para que seja mantido um certo grau de estabilidade com crescimento na economia internacional.
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